O problema não está em não conversar com os pais, está no fato de não querer conversar. Será tão difícil assim manter uma relação aberta a ponto de confiar plenamente neles?  Quando digo ‘confiar’ não estou me referindo à confiança infantil – de proibir que fale para assim ninguém descobrir ou de desejar manter aquele segredo como eterno -, falo da confiança que não julga. Aquela que escuta, presta atenção, e mesmo não concordando com aquilo que fez não te massacra, não te arruína. Refiro-me àquela que te faz perceber o erro e te fornece coragem para seguir enfrente e corrigi-lo.

Deve ser decepcionante descobrir que seu filho não conta mais o que acontece com ele. Como não se preocupar? Como poderiam confiar nas suas decisões se nem ao menos ‘seus bebês’ tem coragem de dizê-las? Como não se sentir solitário, fraco e tristemente chateado consigo mesmo por sua criação, pelo seu ventre, ter cortado o cordão umbilical sem nem ao menos avisar.

Sim, foi um susto a primeira vez que ele chegou bêbado em casa. Achara que o mundo havia acabado, que havia falhado como mãe. Para você, esse era meio caminho andado ao alcoolismo e até mesmo para as drogas. Criou situações na sua cabeça, inventou atitudes que ele poderia ter que o arruinaria – e assim, te arruinaria -, alimentou pesadelos e prometeu concertar o seu suposto erro como responsável. Colocou-o de castigo, fez juras de não o perdoar, chorou na sua frente para que assim, esse insensível, percebe-se o quão dolorido ele deixara seu coração, o quão preocupada você estava.

Quando descobriu pelos outros pais as façanhas que ele fez – colocar todos os alunos contra a professora, brigar com algum colega na sala de aula, levar um animal escondido, discutir e argumentar a ponto da professora ficar encabulada e assim, se encaminhar para a diretoria – quis morrer de vergonha, queria se enterrar. Parecia que todos os outros pais riam da sua cara e esfregavam como seus filhos eram melhores que o seu. Não sabia o que era pior, saber as artimanhas de seu filhote ou perceber finalmente que ele toma suas próprias decisões e nem sempre você as saberá.

Encare, ele cresceu. Manda mensagens pelo celular com aquele sorriso sonhador no rosto, finge estar com sono quando na verdade vai dar um telefonema. Com a família ele continua um amor, mas o que deu de tão errado? Você ou eles não estão preparados para essa “separação”?

O problema é que esses pais parecem ter esquecido. Esqueceram de quando eram jovens, de como evitavam as perguntas incisivas de seus parentes. Esqueceram do dia que pularam o muro do visinho só para sentir aquele arrepio nos pelos e alvoroço no estômago por fazer algo que não era permitido. Esqueceram da vez que passaram a noite toda acordados pensando em seu primeiro, segundo, terceiro amor e de como eles(as) conseguiam ocupar a sua mente tão furtivamente que seu mundo parava: não conseguia prestar atenção no que te diziam, nos recados que fora mandado dar. Estava perdido no melhor sentimento que poderia sentir. Acreditava fielmente no amor e se pudesse se satisfaria apenas com essa maravilhosa sensação. Esqueceu que ao se decepcionar não queria saber de mais nada e nem ninguém, e às vezes a cura eram os braços de sua mãe que, quieta, acalorava sua frieza e respirava fundo para não estragar aquele momento precioso para ela e dolorido para você.

Não sei ao certo como encarar essa situação. Os dois – pais e filhos – lembram do primeiro dia que a criança aprendeu a andar de bicicleta, para o aprendiz, a imagem do rosto orgulhoso dos pais. Aquilo eram lágrimas? Não… Para a criança os pais não choram. Os pais são fortes e te protegerão de tudo e qualquer coisa. Não eram lágrimas. Para os professores – os pais – o rostinho reluzente de seu filho, a felicidade que ele emanava por ter conseguido andar sobre duas rodas era a mais gratificante sensação. Sim, aquilo eram lágrimas. No caso, lágrimas de alegria. Se naquela época já achava que o tempo havia passado depressa, agora então, ele tinha voado! Eu dormi tanto tempo assim para acordar nesse novo mundo, ou as piscadas dos meus olhos que ficaram mais lentas? Quando foi que ele virou esse homem?!

A verdade é que os pais têm infinitos medos, a verdade é que os adultos têm medo. Ao invés de se assustarem com o monstro debaixo da cama, se assustam com o ladrão que pode machucar a sua família, se assustam com os valores dos impostos e com os juros injustos que lhe foram cobrados. Assustam-se ao perceberem que não conseguiram realizar todos os seus sonhos. Também se assustam ao notarem que a importância da sua presença e de seus carinhos dados aos filhos já não são mais tão necessários assim. Eles têm medo de serem esquecidos, de morrerem solitários. Como podemos ter tanta relutância com algo que será impreterivelmente o fim de todos? É a morte existe e uma hora ou outra todos teremos que encará-la.

A coisa toda é uma roda-gigante. Nós giramos e nem sempre sabemos onde ela vai parar. Fechamos os olhos, sentimos o vento passar pelo rosto e queremos que aquela sensação não acabe nunca. Tentamos abrir as pálpebras e a única frestinha que consegue ser aberta, enxerga as luzes embaçadas. Sua única capacidade é a de olhar para a ponta dos seus cílios, a sensação é rara. A vida é rara. Caminhamos por diversas trilhas, admiraremos e iremos nos entristecer com o que foi visto no decorrer da sua passagem e, por mais que você pegue atalhos, que escolha o caminho mais longo e belo, todos eles, todas as suas escolhas e decisões te levarão para o mesmo lugar. Uma hora você terá que descer da roda-gigante. Uma hora você terá que soltar as barras de segurança. A questão é como você pretende chegar lá. Fará ou não diferença? Ela será com boa índole ou não? Quais valores você escolherá?


Texto que pode um dia ter continuação…

Catharina Guedes